“Não podemos julgar” diz Padre Fábio de Melo sobre travesti

Um episódio narrado pelo conhecido padre-cantor Fábio de Melo gerou um debate na internet. Ele contou, durante a pregação no evento Hosan...

Um episódio narrado pelo conhecido padre-cantor Fábio de Melo gerou um debate na internet. Ele contou, durante a pregação no evento Hosana 2015, da Canção Nova, em São Paulo, como foi seu encontro com a travesti Luana Muniz.
O relato está em um vídeo com sete minutos da sua pregação. Após ganhar as páginas do jornal Extra, do Rio de Janeiro, e foi reproduzida por vários sites.
No final de novembro, o padre estava na festa de aniversário da cantora Alcione, celebrada na quadra da Mangueira, Zona Norte do Rio. Entre os diversos convidados também estava Luana, que ficou conhecida após aparecer em um episódio do programa Profissão Repórter, da Rede Globo.
O padre conta que o travesti se aproximou dele e pediu para tirar uma foto. “O senhor costuma tirar fotos com pecadoras?”, disse Luana. Mesmo constrangido, o sacerdote concordou. Antes de sair, o travesti disse: ‘eu não acredito que o senhor permitiu’.
“Os olhos dele estavam emocionados”, relata Fábio. Ele também diz que se emocionou ao saber quem era aquela pessoa. Maria Helena, a irmã da Alcione, contou a ele que o travesti Luana criou um grupo que alimenta e recolhe mendigos que vivem no centro do Rio. Além de dar banho, os alimenta. Também se tornou uma espécie de vigilante, protegendo os moradores de rua.
Para o padre, segundo suas próprias palavras, o encontro foi uma confrontação com sua hipocrisia e preconceito. “Que coisa horrorosa isso em nós… Como se eu fosse melhor. Isso é mesquinho, é vergonhoso”, disse ele em frente aos milhares de fiéis que estavam no evento e ouviram o testemunho.
Foi então que o líder católico, disparou: “Eu não entro no mérito da questão da vida que ele [o travesti] leva, vamos deixar que Deus faça isso. Não sou síndico da Eternidade. Agora, que é um tapa na cara da gente, é!”.

A seguir, começou a fazer um desafio aos presentes, ecoando o relato dos evangelhos da parábola do Bom Samaritano. “Aquele que você enxerga e que, naturalmente, provoca um desconforto por ser tão diferente de nós. Não sabemos quantas coroas da dignidade foram recolocadas por aquela pessoa…. Eu sou padre e nem sempre tenho disposição de recolher quem precisa. Você é cristão e nem sempre está disposto que ele tem de cuidar de quem está doente, colocar dentro da sua casa… alimentar e amar quem precisa ser amado ”.

Ao desafiar os presentes, foi incisivo: “Não cabe nenhum julgamento do lado de lá, cabe aqui. Quando Deus coloca essas pessoas diante de nós, é para desmoronar os castelos de ilusão que nós criamos dentro. Como se o nosso cristianismo já tivesse pronto. Como se nós já tivéssemos chegado ao último estágio dessa santidade que Deus nos convida”.
Quando fez a aplicação do texto que fora lido no início da missa (Marcos 6), o padre não poupou críticas “eu ainda me envergonho dos que são diferentes de mim. Eu ainda tenho medo de ir ao encontro daqueles que precisam de mim. E essa palavra de Paulo… é dura: a missão de vocês é junto daqueles que estão necessitados. Olha o evangelho de hoje!”.
Muito aplaudido durante a homilia, os questionamentos de Fábio de Melo podem ser vistos de duas maneiras. O cristão leitor da Bíblia poderá argumentar que a igreja brasileira de modo geral não tem seguido os mandamentos de Jesus para cuidar dos necessitados.
Embora existam ministérios que façam isso, são exceção e não a regra. Por outro lado, poderá apenas se concentrar no fato de que, por melhor que a pessoa seja, não se pode atribuir a alguém que viva fora do padrão bíblico, o título de “pastor”, “sacerdote” e “profeta” como fez o padre.