Opinião de João Goulão -Chefe da OEDT- Sobre a Internação Forçada de Usuários de Crack

Foto: Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT) / Divulgação No início deste ano os estado do Rio de Janeiro e São Pau...


Foto: Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT) / Divulgação

No início deste ano os estado do Rio de Janeiro e São Paulo numa atitude desesperada de acabar com o crescimento desenfreado de consumo de crack e com as cracolândias  aderiram ao  tratamento baseado na internação compulsória e involuntária dos dependentes químicos. Diante disso o chefe das agências de combate às drogas de Portugal e da Europa – e responsável por uma das políticas antidrogas mais respeitadas do mundo – João Goulão , questiona a eficácia da estratégia, mas pondera: o crack impõe um desafio mais difícil a ser superado, embora evite opinar sobre a política adotada no Brasil.
"A grande diferença é que o nosso problema principal era o consumo de heroína (em Portugal), e com a heroína nós dispomos de armas terapêuticas muito importantes, como a metadona. Enquanto que com o crack, ainda não dispomos de nenhum medicamento semelhante", afirmou o especialista, presidente do Observatório Europeu da Droga e Toxicodependência (OEDT), em entrevista ao Terra.. 
Desde que o Estado de São Paulo implantou um plantão judicial no Centro de Referência de álcool, tabaco e outras drogas (Cratod), à 40 dias, com juízes, advogados e representantes da Promotoria encarregados de autorizar a internação compulsória e involuntária de dependentes químicos, mediante recomendação médica. No primeiro mês de plantão, foram executadas 223 internações, das quais 206 foram voluntárias (as pessoas foram convencidas a aceitar o tratamento), 17 involuntárias (com a autorização da família) e nenhuma compulsória (quando não é necessária autorização prévia da família).
Goulão frisou em sua entrevista que houve uma ação conjunta, entre poder público, familiares de usuários e empresas que o apoiaram pois lá em Portugal, assim como no Brasil, não haviam apenas pessoas pobres viciadas em Heroína (que era a droga contra a qual lutava), mas sim muitos filhos de empresários e de pessoas poderosas e que por isso também se engajaram na luta, algo que ele não percebeu no Brasil, pois o brasileiro, como nós bem sabemos, ainda liga o consumo de crack a marginalização e a pobreza. A descriminalização do consumo de drogas, segundo Goulão, também foi um passo importante, pois o usuário deixou de ser visto como um criminoso.
"A internação compulsória funciona? A princípio, sou contra. Porque o internamento compulsivo é necessariamente limitado no tempo." João Goulão
Segundo Goulão o contato continuado com os profissionais de saúde, pela insistência em se ganhar essa a confiança através de pequenos passos. Não focando muito no objetivo de interromper o consumo, mas proporcionando formas de cuidarem um pouco, mesmo que esse consumo se mantenha  pode se uma boa condição prévia antes do fim do consumo da droga. Isso acaba por vir mais tarde, quando de fato as pessoas confiam que não vão ser humilhadas, não vão ser maltratadas, pelo contrário, quando elas percebem que esses agentes que as abordam nas ruas querem ajudá-las. Mas também diria que cada país tem que encontrar seu próprio caminho. Infelizmente, não há uma receita que seja possível exportar de um país para o outro. 
"Mas no Brasil, penso que os fenômenos das cracolândias estão ainda muito ligadas à pobreza e à marginalização, então não existe uma sensibilização transversal na sociedade, como ocorreu em Portugal."João Goulão
 O que mais me chamou a atenção na entrevista de João Goulão não foi a descriminalização do consumo de drogas ou sua posição a respeito da internação forçada, mas a sua percepção ao ver nós brasileiros tão hospitaleiros com nossos turistas, conhecidos como um povo quente, aprazível e alegre demonstrar tanta falta de amor pelo próximo, digo, nosso vizinho, conterrâneo, colega de escola, parente, colega de trabalho. Ficou muito claro pra mim pelo menos que, só funcionou em Portugal porque houve uma ação conjunta, houve uma sensibilização geral, uma consciência de que o problema era de todos. Falta isso no Brasil.

Fonte: TERRA