Feliciano desgasta a imagem ''mundo evangélico'', diz Ricardo Gondim

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o teólogo, mestre em ciências da religião e líder da igreja Betesda Ricardo Gondim a firma ...


Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o teólogo, mestre em ciências da religião e líder da igreja Betesda Ricardo Gondim afirma que a presença de Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de Deputados desgasta a imagem do mundo evangélico e provoca constrangimentos e rejeições.



O jornal apresenta o teólogo como dissidente do movimento evangélico por ter sido chamado de herege devido a críticas à teologia da prosperidade e que se vinculou à igreja Betesda, que significa “lugar da misericórdia de Deus” em hebraico.

O pastor critica as declarações feitas por Marco Feliciano de que os afrodescendentes foram amaldiçoados por Noé e se diz constrangido com o que vem sendo veiculado pela mídia.

Segundo Gondim, Feliciano usa de uma teologia antiga para justificar suas afirmações e lucra a partir dela. “Essa teologia (...) tem origem entre os colonialistas, que dividiam o mundo em três áreas – o ocidente, o oriente e o sul. Nesta última teriam ficado os possíveis descendentes do personagem bíblico, os amaldiçoados”, afirma.

Feliciano, diz o teólogo, é “apenas o porta-voz de um grupo que (...) replica argumentos usados por países colonialistas para a dominação e exploração dos mais pobres, especialmente na África”. Para ele, esse tipo de teoria é simplista, “racista na sua essência” e “inadmissível para um deputado”.

Na entrevista, o teólogo afirma que Feliciano seria criticado independentemente de ser evangélico ou não, pois suas declarações são “inaceitáveis”. “Qualquer pessoa que dissesse o que ele disse enfrentaria problemas”, afirma.


Entretanto, Gondim diz que o fato de Marco Feliciano ser um representante evangélico colabora para que manifestações contra ele também sejam legítimas.

Sobre o casamento gay, Gondim se mostra a favor, já que é uma demanda “justa” da sociedade brasileira e nenhum tipo de crença deveriam fazer parte desse tipo de discussão. “Todas as demandas justas precisam ser contempladas sem a necessidade de moralização exacerbada do debate. Não existem grupos que estão acima de todos os outros”, defende o estudioso.

Para ele, “numa sociedade que se pretende laica, é assim que deve ser”. “O Estado tem que se distinguir, tem que legislar à parte, porque não se trata de uma família grande. Se não for dessa maneira, o Brasil cai no patriarcalismo, fica sob o controle de oligarquias patriarcais, que irão legislar a partir de seus interesses, para que eles prevaleçam sobre todos. A questão gay deve ser contemplada pela sociedade civil como a reivindicação de um grupo que busca tratamento igual perante a lei”, afirma Ricardo Gondim.

Na entrevista, o teólogo afirma que a renúncia de Feliciano seria a atitude mais “lúcida” diante da atual situação e da grande repercussão de seus atos e declarações. “A teimosia dele em permanecer no cargo vai trazer prejuízos enormes para o grupo que pretende representar. O desgaste para o mundo evangélico já é patente”.

“O Marco Feliciano se apresenta como representante não só do mundo evangélico, mas de todo o protestantismo. Na verdade, ele pouco representa das tendências protestantes”, afirma Gondim.

Segundo ele, Feliciano “foi eleito por um segmento muito alienado politicamente. Candidatos como ele são eleitos, geralmente, para se tornarem os representantes de sua igreja no parlamento”. O pastor afirma que essa postura é de quem se preocupa mais com interesses da igreja do que do povo, de uma maneira geral.